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Não importa se estive, ou não!

A vida é um emaranhado de ações, reações e acontecimentos. Aqui, incluem-se as nossas ideias, pensamentos, divagações e estados de sentir. Ouvir a nossa intuição é primordial!

A vida é um emaranhado de ações, reações e acontecimentos. Aqui, incluem-se as nossas ideias, pensamentos, divagações e estados de sentir. Ouvir a nossa intuição é primordial!

Não importa se estive, ou não!

02
Fev18

Entretenho-me agora a ler os mails

Gabriela Lima

Entretenho-me agora a ler os mails… respondo com ansiedade a todas as questões pertinentes dos intervenientes e conto que estou a adorar conhecer novos lugares e ambientes e que, apesar de tudo, nem passou assim tanto tempo.

Não fumo, mas apetece-me, de repente, puxar por um cigarro e beber um café. Não tenho, não vou comprar, conforto-me na agonia de ter de me livrar do desejo imprestável.

Excuse me, can I seat over here next to you? There is no other place available and I really need a drink! [Desculpe, posso sentar-me aqui ao seu lado? É que não há outro lugar disponível e eu preciso mesmo de uma bebida!]

Yes, please, go ahead! – [Sim, força!] respondo à figura que se senta ao meu lado, enorme, de cotovelo quase colado ao meu. Não havia mais mesas disponíveis, estava visto! Aqui, o pessoal senta-se à vontade, desde que haja cadeiras vagas, é o suficiente. Depois, vai-se ao cinema e deixam uma cadeira livre para manter a distância. Vá-se perceber!

Começa por virar a cabeça várias vezes na minha direção, lança um sorriso e volta a girar para o outro à procura de um empregado, que lhe aparece do lado oposto e a assusta ao perguntar-lhe o que iria tomar.

Pediu uma soda e não opôs resistência ao pedido de um hamburger igual ao do vizinho da mesa ao lado.

Sinto o seu corpo a debruçar-se sobre mim e fitada diz-me o que passo a traduzir:

Não é daqui pois não? É tão pequenina, mas não é chinesa… de onde vem?

Sou de um país tão pequeno quanto eu, mas grande em espírito.

Respondo-lhe, embora com pouca convicção quando saliento a palavra “espírito”! Nós, portugueses, achamos que já fomos mais fortes de espírito, primeiro nos primórdios por alturas das Cruzadas, e, depois, durante os esplendorosos Descobrimentos. Agora, a nossa grandeza de espírito refugia-se, não em feitos deste porte, mas naquilo que passei a explicar à senhora curiosa: a boa disposição acomodada! Expressões como “lá se vai andando”, “um passo atrás do outro”, “um dia de cada vez”, “nunca pior” corroboram este grandioso estado de espírito de conformação com a dura realidade!

Resolve apresentar-se.

 – I’m Rose, and you’re… [Eu sou a Rose, e você é…]

– Hermengarda, but you can call me Garda. [Hermengarda, mas pode tratar-me por Garda.]

– Está um dia absolutamente radioso, não acha? Depois de um dia sem fazer nada, acabo sempre sentada aqui, a tomar algo fresco, no verão. Para mim, não existe outono nem primavera. Gosto dos extremos. Procuro os extremos. Escolho os extremos. No inverno, é um frio de rachar e eu fico em casa a fazer zapping. Já não trabalho, não posso, sou muito gorda e tenho imensa dificuldade em mover-me, concentrar-me para o que quer que seja… mas tenho um negócio… vendo produtos de beleza numa página online e tenho uma secretária que me trata das encomendas, papeladas, etc. Só fico mesmo com tempo para engordar ainda mais, porque já não posso, não aguento e tenho agonia à ginástica e a uma alimentação dita saudável! Vou dar-lhe o endereço do site para ir lá dar uma olhada. Está a precisar de umas cores, mais vida, de sobressair… é muito pequenina, miudinha e ninguém repara em si, não se vê! Só reparei porque a única cadeira livre era esta! Está a ver, reparei foi na cadeira.

 Com isto, lançou-me um olhar de gozo e extremamente colorido, dado o tom azul turquesa dos seus olhos, torneados por uma massa rosada que os tornava ainda maiores, que me engoliam, mas sem assustar. À medida que sentia o palpitar de cada olho a tentar vasculhar-me, ambos pareciam abrir mais, de forma que já os sentia em cima de mim a lerem tudo o que podiam nos meus. De repente, Rose bufa, removendo os seus olhos da área de domínio sobre mim, em sinal de desistência. Devo ter bloqueado todas as minhas expressões mais transparentes, concentrando todas as minhas marcas e rugas faciais numa só a representar aquele «Sim?» de quem quer perguntar «Querias alguma coisa», sem permitir livre acesso para lá daquele limite. Isto é automático em mim. De uma cara de santa passo para uma cara de autêntica pedra (isto faz-me associar ao termo “rocha” algures atrás incluído no texto antigo, levando-me a querer descodificar a mensagem).

Sim, tem toda a razão. Tenho de dar um pouco mais de cor a este rosto, mesmo quando não estou a fazer nada de especial. Só para me fazer sentir menos pálida. Sugestões?

Ó minha querida, que sugestões lhe posso eu dar? Deixe-me cá ver. Está sozinha?

Sim, resolvi dar-me a liberdade de me enfiar no avião e fazer uma viagem sozinha, sem propriamente um destino concreto. Hoje, estou aqui, talvez durante cerca de mais um ou dois dias e, depois, vou dar mais um pulo até qualquer outro lado, ainda não sei bem…  Não tenho uma razão específica para o fazer, senão a vontade e a possibilidade.

Compreendo. É muito corajosa. Sugiro-lhe, então, cores fortes e contrastantes em dias de vigor, cores escuras a contrastar com um tom vivo em dias de raiva e cores calmas a contrastar com um tom forte em dias de ternura. Depois, aplique as cores de que mais gostar de ver em si, porque isso é muito subjetivo. Podia dar-lhe um conjunto de opções que mais se aplicam ao seu tom de pele, mas, se não coincidirem com a sua personalidade, estado de espírito e vestuário… deixam de fazer sentido. Não me parece que precise de muita orientação neste assunto. É uma alma livre e não segue tudo o que lhe dizem. Estou certa?

Naquele momento, a Rose deixou de ser aquele vulto enorme, que se sentou ao meu lado e começou a desafiar conversa, para se transformar no tipo de pessoa para quem se olha de frente com atenção, surpreende, ouve-se sem interromper e se regista como alguém que se gosta. E depois, vêm sentimentos de respeito, segurança e fé. Transmite tudo isto, esta Rose.

Bom, amorzinho, adorei este momento. Desejo-te uma viagem feliz e cheia de boas surpresas. O meu cartão, para poderes enviar-me um mail sempre que te apetecer e contar-me como vai a aventura.

Conforta-me com um abraço e um «Keep safe. You’re a very nice person.» [Fica bem. És uma pessoa muito simpática.]

«Thank you so much for this sweet moment and for your words. I’ll keep in touch then. Bye.» [Muito obrigada por este doce momento e pelas tuas palavras. Claro que manterei o contacto. Adeus.] E assim me despeço dela. A agradecer-lhe o momento e as suas palavras. Pretendo escrever-lhe sempre que puder. É uma pessoa intrigante. Acho que vou mesmo visitar o seu site e fazer-lhe uma encomenda. Só assim ficarei satisfeita por também poder contribuir para a sua aptidão de “embelezar” as pessoas.

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