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Não importa se estive, ou não!

A vida é um emaranhado de ações, reações e acontecimentos. Aqui, incluem-se as nossas ideias, pensamentos, divagações e estados de sentir. Ouvir a nossa intuição é primordial!

A vida é um emaranhado de ações, reações e acontecimentos. Aqui, incluem-se as nossas ideias, pensamentos, divagações e estados de sentir. Ouvir a nossa intuição é primordial!

Não importa se estive, ou não!

30
Jan18

Dia seguinte

Gabriela Lima

Dia seguinte, deixo-me passear, vou para a avenida comercial… sou tããão consumista! Não valho nada!

Sento-me num café/restaurante e observo um tipo com ar de padre, sentado, a comer qualquer coisa que se assemelha a bife com algo que não consigo perceber, dado que o seu copo largo e alto de coca-cola teima em esconder o acompanhamento. Olhos espetados no prato e no garfo cheio de carne a levar à grande boca aberta, come sem etiqueta nem encanto. Apercebo-me que existe um outro prato com restos de comida ao seu lado direito. A cadeira desse respetivo lugar está recostada ligeiramente para trás contra a parede. Segundos depois, entra no meu campo de visão uma senhora, alta, bem aprumada, de cabelos longos pretos, sedutoramente penteados. O ar de padre pousa os talheres no prato, eleva-se do assento com firmeza e num movimento curiosamente suave, segura a cadeira e ajusta-a ao corpo feminino à medida que este vai deslizando na base do assento para se acomodar. Vê-se um sorriso e um olhar direto na face do homem, a mulher olha para ele de soslaio, a retribuir-lhe o comportamento, vira-se ligeiramente para ele, já sentada, recosta-se para trás e observa-o com olhos carinhosos à medida que este se senta e retoma o apetite.

Retiro da minha mochila, acabadinha de estrear, depois de não resistir a uma montra, papéis soltos escrevinhados e datilografados, a cheirar a longevidade, e abro o que me aparece mais à mão. Começo a ler:

“…

Desde que uma chama se apagou e outra se acendeu…

Que pretendo eu dizer?

Como?

Não sei… foi surgindo à medida que eu fui abrindo o espaço em seu redor… cada vez mais forte… mais forte…

Que pretendo eu dizer?

Porquê?

Porque eram dias lindos… o Sol ofuscava intensamente… a chuva chorava intensamente… a neve resplandecia intensamente…

Era tudo tão sóbrio, tão nítido… mas… retração… retração… ideia intensa…

Que pretendo eu dizer?

Quem?

Omissão do sujeito?... Tentador! Talvez a montanha mais alta, mais… não… é o montanha mais alto, mais… não… é o Sol mais alto, mais longínquo que aquece, transpira de ardor, de calma.

É?! Certo era!

Que pretendo eu dizer?

Quando?

Os olhos escapam aos olhos…

Que pretendo eu dizer?

Como?

Não sei… imprevisto desnecessário… ofensa…

Que pretendo eu dizer?

Porquê?

Desde quando tudo faz sentido?

Triste comentário isto… medo… gato e gata… liberdade… orgulho… animais fervorosos…

Que pretendo eu dizer?

Quem?

O Sol, o montanha, o gato, o animal fervoroso…

Que pretendo eu dizer?

Quando?

Indeterminado… quero… não quero…

Folhas caídas… folhas sem pranto… folhas nascidas de novo…

Que pretendo eu dizer?

Como?

Os dias… raiz de enraizar… arca agonizante… refúgio?... saudade?... sujeito cognoscente… indiferença… novo acolhimento…

Que pretendo eu dizer?

Porquê?

Complexo sistema… desprendimento… isenção de fé… metamorfose dorida… neve derretida à toa… Sol distante… o tornar-se rocha, independente do Sol geral, ligada subtilmente ao Sol restrito…

Que pretendo eu dizer?

Quem?

O Sol, o montanha, o gato, o animal fervoroso, o Sol restrito.

Que pretendo eu dizer?

Tudo, menos dizer-vos!”

Acho que, basicamente, nem eu compreendo agora esta lengalenga. E “o montanha” soa-me agora deslocado, não consigo alcançar-lhe o significado.

Suponho que o importante era deitar para fora o conjunto de imagens associadas a emoções e pensamentos muito meus, muito daquele momento e que acabei por guardar algures dentro de mim, em lugar seguro para sempre, protegidos de mim mesma até.

Não sou ligada a nenhuma religião em específico, mas concordo com as indicações orientadas para quem ensina catequese na religião católica que se resumem no mostrar às crianças que “Deus gosta que falemos com Ele”, despertando assim “o desejo de falarem muitas vezes com Deus”, o que ajudará a “criarem o hábito de falarem com Deus”. Não sigo, porém, a mesma metodologia e orações. Creio ter usado o “meu querido diário” para o efeito! E interpreto Deus à minha maneira, por forma a encaixar-me o ritual escolhido.

Volto a olhar para o casal que se levanta ritmado e em profunda sintonia, encontram as mãos e seguem destino fora. Não se enquadram na confusão lida anteriormente…

Não os alcanço mais, desapareceram ao virar da curva.

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