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Não importa se estive, ou não!

A vida é um emaranhado de ações, reações e acontecimentos. Aqui, incluem-se as nossas ideias, pensamentos, divagações e estados de sentir. Ouvir a nossa intuição é primordial!

A vida é um emaranhado de ações, reações e acontecimentos. Aqui, incluem-se as nossas ideias, pensamentos, divagações e estados de sentir. Ouvir a nossa intuição é primordial!

Não importa se estive, ou não!

29
Mar18

Na companhia de quem também nos quer! Agora sim...

Gabriela Lima

Agora sim, de regresso

 

Agora sim, de regresso à realidade, estou no meu café preferido. Virada para os grandes vidros, alcanço a linha do horizonte que assenta sobre o mar como uma faixa vermelha de final de tarde a prever um dia seguinte de sol e puros tons de azul e verde a pintar o céu e o mar.

Olho, deixo-me imbuir em imagens, sons e pensamentos. Aproveito a minha tarde “off”, ligo novamente o portátil, abro um documento de texto e deixo o cursor piscar em vazio durante algum tempo.

Enquanto o cursor pisca, surgem-me mil sensações cruzadas, algumas associadas a imagens, outras a vivências. No conjunto, não vislumbro nada em concreto. Deixo que a seleção se faça aleatoriamente e, incrivelmente, lembro-me das meias aos corações coloridos em fundo cinza escuro que trago calçadas, que em nada combinam com o resto da indumentária e que se deixam ver, sentada, com as calças meio subidas. Penso em tapá-las, mas ocorre-me uma gargalhada interior e deixo-as ficar assim, em modo de palhaça que possa alegrar o dia de mais alguém que a elas ache piada!

Recordo todas as minhas amizades, desde a infância até ao momento e tento não me esquecer de ninguém, sabendo que será inevitável. Recordo as que ficaram sempre dentro de mim gravadas como alguém especial, independentemente de ter ainda ou não ligação. As menos positivas, recordo-as na tentativa de explicar o erro, se meu ou da outra pessoa, ou de ambos ou ambas. Recordo para observar se mudei orientações para melhor, ou para pior ou se em nada mudei. Sei que mudei muitas tendências para melhor… outras, continuo sem compreender muito bem como fazer, e outras… fico convicta de que a base situacional não se deveu a mim, sendo que continuo com uma perceção da outra pessoa como sendo uma pessoa “não para mim”. E, depois, existem aquelas que me magoam e parecem continuar a querer manter a amizade não querendo, e eu não sei como proceder. Ora me apetece extingui-las da lista dos amigos de coração e transferi-las para a lista dos amigos por conveniência ou deitar efetivamente ao lixo. Ao lixo… não me soa correta esta opção, não a sinto como desejada. Fico assim… à espera que o mar me responda! Deleito-me a olhá-lo novamente. E o cursor permanece “piscando”!

25
Mar18

Escrevinho algo num papel

Gabriela Lima

Escrevinho algo num papel. Estou de volta, porque deixei de querer perseguir o mundo no encalço daquilo que penso ter encontrado. Preenchi AQUELA gaveta! Ainda não consegui fechá-la, permanece escancarada, na expectativa de não a vir a fechar… sei, no entanto, que o inevitável irá acontecer!

Escrevinho para me entreter na viagem de regresso, a olhar desvairada para o todo e a tentar encontrar aquele único ponto de união, de magia, de rasto perdido. Sonho com tudo igual e um nada diferente, ou com tudo diferente e um nada igual!

Olho para todos os lados e consigo vislumbrar os bons momentos no rescaldo de cada troço da minha não tão extensa viagem. Sorrio convencida de que sou o máximo, de saber o que conheci e de conhecer o que sei. Mas sinto um fio de profunda tristeza, porque não conclui esse caminho.

Escrevinho tudo isto e descrevo o meu estado em consciência. Agradeço, contudo, ter absorvido todas as emoções, todos os pensamentos, todas as ações, todas as interrelações, todas as conversas. Não me esquecerei. Conheci muitos alguéns até hoje e todos preenchem o meu lado relacionável.

Não tocarei, ouvirei, verei, cheirarei nem falarei com AQUELA pessoa outra vez. Estou convicta disso. Não procurarei nem serei procurada. Só sentirei e serei sentida. Disso estou certa e convicta. Não pergunto se será suficiente, não importa.

Não me atrevo a fechar a gaveta. Estou imbuída naquelas emoções e sentimentos. Paro de gatafunhar, recosto-me para trás, deixo-me recordar.

As imagens correm depressa, sem ordem nem sucessão lógica. Deixo acontecer… não paro, não critico, não penso… deixo correr aquele filme incomposto.

Não importa se estive ou não estive, se vivi ou não vivi, se tudo é diferente ou igual, porque, na verdade, é tão diferente quanto igual. O âmago é o que nos une e nós diferenciamo-nos não pelo que nós somos, mas pelo que queremos parecer ser. E enredados nesta imagem que parece ser, mas não é, acreditamos no que parece ser e não é. E assim se constroem seres, culturas e nações… iguais e diferentes! Termino a digressão sem vontade de desenvolvê-la e abro portas ao devaneio seguinte.

23
Mar18

Foi e ficou para não ser

Gabriela Lima

Foi e ficou para não ser. Rodni voltou a Inglaterra e reintegrou o seu dia-a-dia. Eu continuei a minha viagem por terras de Itália, com o intuito de ser a última paragem. Uma paragem perfeita para integrar todos os acontecimentos e terminar em pleno esta viagem maravilhosa. Haveria muito ainda que visitar e percorrer, novos países e continentes, mas desta feita cheguei à conclusão de que era altura de voltar e reinserir-me na viagem real de regresso à rotina diária.

Nada como a Cidade da Moda para me devolver a vontade de gastar! Não é à toa que o país tem a forma emblemática de uma bota.

Um local de pessoas afáveis, sempre prontas a iniciar uma conversa fortuita sobre tudo e sobre nada. Um emaranhado de gentes de todos os cantos do mundo à procura de algo que será superado pela própria vivência na cidade.

22
Mar18

Entro no site da Rose

Gabriela Lima

Entro no site da Rose. Lembro-me da sugestão de cores fortes e contrastantes em dias de vigor, cores escuras a contrastar com um tom vivo em dias de raiva, e cores calmas a contrastar com um tom forte em dias de ternura. Mas que cores devo escolher para os dias de indecisão entre deixar situar-me entre o vigor, a raiva e a ternura? Envio-lhe um mail, dou-lhe o contexto e aguardo a sugestão.

A resposta veio pronta e entusiasta.

«My dear», traduzo: «Que maravilha. Não sei como conseguiste uma descrição tão glamorosa e clarividente de todo o acontecimento que enaltece a tua alma e deixa o teu físico em forma (lol). Mas essa fusão de sensações que te deixa “entre o vigor, a raiva e a ternura” é o resultado de um estado comummente designado PAIXÃO. A PAIXÃO em maiúsculas… que é a primeira e derradeira PAIXÃO. Quase fico sem palavras para sugerir cores e tons. Tudo apontaria para os tons fortes, garridos, de extremo vigor! Mas não parece que o teu estado de PAIXÃO se reflita nesses tons. Eu interpreto como sendo uma PAIXÃO celestial, logo eu penso em tons fundidos de vigor, raiva e ternura. Vigor pela sublime energia, raiva pela indefinição nesta vida e ternura pelo amor que acarreta. Azul púrpura forte com azul avermelhado “pôr-do-sol” para os olhos e um suave “rosa-pele” para os lábios. Não tenho nem estes tons, nem esta combinação, mas acabaste de me oferecer a ideia para uma nova fórmula. Obrigada, minha querida. Que dizes da minha sugestão? Para já, carrega nos tons que gostares mais à tua vontade e dá apenas um ténue brilho aos teus lábios. Eu vou mandar preparar já a nova fórmula e assim que estiver pronta, serás tu a inaugurá-la! Posso usar o teu nome ou uma referência a ti para sugerir o nome dela? Faço questão de te associar à nova fórmula, pois ela será senão uma representação de ti!»

Como recusar uma oferta destas? A sugestão parece-me genial e repleta de visão! A Rose sabe mesmo do que fala. Não consegui, no entanto, retirar intimidades dela nem com base na minha própria história. A Rose é o tipo de pessoa reservada completamente aberta para os outros. Uma oposição incontestável!

21
Mar18

Andamos e conversamos incansavelmente

Gabriela Lima

Andamos e conversamos incansavelmente. Tudo parece perfeito. Não existe tempo nem espaço. Só existimos nós e parece que por onde passamos, somos nós que fazemos a paisagem, só um largo extenso e plano tecido de cor e harmonia… as pessoas são meros mecos que vamos contornando ora afastando-nos, ora unindo os nossos corpos com cada vez mais intensidade e voltando a apartá-los na devida distância, ao toque de apenas um dedo.

- Vamos dançar? A música é interminável e já não aguento não dançar.

Agarra-me em posição de valsa e lá vamos nós… passeando a dançar ao som de uma valsa que só nós podemos ouvir. Os mecos são agora adornos de festa de rua que abraçam a causa.

A música acaba, paramos e ouve-se no silêncio um calafrio aquecido por um beijo estonteante. O foco de luz ofusca tudo o resto e sinto que não vejo, sinto apenas!

O cursor pisca à espera de escrever. Não sei como descrever. Não consigo.

Avanço letras com o cursor… volto a apagar… não encontro palavras, referências. Não saio do beijo. Não saio dali. Ficava ali sempre. Numa zona sem tempo e sem espaço. Lindo, ofuscante, deslumbrante.

Acordo num abraço profundo, em corpos se tocando, se agarrando desenfreadamente, alisando com as mãos todos os contornos de cada corpo, próximos, um toque quase sem tocar, sem pesar, leve, quente, paramos em êxtase!

Abro os olhos dentro dos olhos e vejo os meus olhos!

Desperto em novo abraço profundo e entrego o meu destino, sabendo que não será este o caminho. Abro um nicho na minha vida que acolho na mais profunda cavidade do meu coração para guardá-lo em segurança para a eternidade.

20
Mar18

Estou no local do encontro

Gabriela Lima

Estou no local do encontro… estou a ficar inquieta da espera, por um lado, de estar parada, por outro!

São 17:30 e começo a ficar impaciente, a contrariar a vontade de continuar a viagem, a combater a sensação de desilusão por ilusão… irrito-me comigo mesma por permitir-me ter estes pensamentos devastadores de momentos potencialmente reluzentes.

Eis que vejo a figura a aproximar-se silenciosamente no reflexo do espelho da porta. Agora esboço um largo sorriso, convicta de não ser detetado, e todo o meu corpo se enche de um calor quase insuportável!

«Olá!» e fica especado a olhar para mim com um sorriso muito malandro. A energia descontrola-se dentro de mim… não consigo reagir de forma consciente e serena… solto um riso de longo alcance capaz de incutir a cura a um surdo! Senta-se quase em cima de mim como que a abafar as ondas sonoras que ondulam. Agarra-me nas mãos e diz que «não consigo aguentar esta pressão no estômago…»; a pausa deixa-me nervosa e quase a formular uma resposta. Balbucia «estou cheio de fome! Preciso de ir comer qualquer coisa» e eu fico ali assim, de boca entreaberta, feliz de não ter conseguido dar a resposta quase preparada para ir numa direção tão diferente.

- Perfeito. Vamos lá comer então e deixar esse estômago satisfeito! – Faço a reparação.

- Ah… sim… um gelado… é o que vou comer agora. Acompanhas-me?

19
Mar18

Desço para o átrio

Gabriela Lima

Desço para o átrio do hotel, olho em meu redor e sinto que sou uma mulher muito rica, no meio de tanto luxo e desço à realidade de ser um ser tão comum como a pessoa que vejo passar no passeio da rua, lá fora! Suspiro de alívio por não ser uma entidade famosa, conhecida e reconhecida que tem de colocar sempre os óculos escuros ou um chapéu de aba comprida para se esconder do reles público… o que até nem seria mau se gostasse da prática profissional cujo sucesso trespassasse o mundano… contradições malditas que nunca deixarão de existir!

O quarto é, sem dúvida, muito confortável… uma cama enorme só para mim, uma casa de banho do tamanho de um quarto normal a pequeno… a varanda é espaçosa o suficiente para me sentir recolhida e à vontade para esmiuçar com os olhos o ambiente da cidade. Gostava de conhecer a suite…

Quase que sinto o impulso de voltar a subir e rabiscar qualquer coisa no computador…

Mas sigo em sintonia com o outro impulso de ir lá para fora, misturar-me com a malta da ribalta e da vida simples, penetrar na atmosfera algo fresquinha, imiscuir-me nas casas, ruas, gentes e verdes, procurar um café com a minha cara, sentar-me, ler uma revista que comprei num quiosque por onde passei, que passaria a ler em modo de tradução difícil, a ver pelos meus já escassos conhecimentos dessa língua, para me entreter mais adiante a comparar as versões… original ou tradução? Às vezes, as línguas têm destas coisas… consoante o contexto, conseguem exprimir melhor do que o original, simplesmente porque podem exprimi-lo claramente através de uma ou duas palavras, ou porque já possuem a expressão ideal, sendo que leva uma eternidade de palavras à língua original para expô-lo ou não existe nenhuma expressão ideal para o fazer. Nesta reflexão, continuo a mostrar uma faceta inteligente e de pessoa com um não sei o quê, através de uma postura facial e corporal, que prende a atenção. Dou-me conta e mantenho o papel. A reflexão transforma-se em gozo, porque me lembro que a língua portuguesa, e como qualquer outra, com certeza, tem palavras que ficam extremamente engraçadas se calharmos de não escrevermos uma letra, mudando-lhe todo o sentido sério e sóbrio, para um sentido completamente estúpido e descabido. Por exemplo, palavras tão comuns como “pedido”… cai o primeiro “d” e logo podemos ler outra… «Pe(d)ido aprovado!»… e rio-me parva e descabida no meio de um tão conhecido café de cafés que me são, na  verdade, desconhecidos! Logo de seguida, surgem muitas de uma tiragem que não consigo controlar. Agora, já não devo transmitir aquele ar intelectual, mas um de mesmo muito maluquinha.

Leio um artigo engraçado e descubro que um dos animais mais perigosos do mundo… nunca lá chegaria… é o hipopótamo!

19
Mar18

No hotel!

Gabriela Lima

No hotel! Continuo a tentar interpretar “oportunidade”. No momento de dizer «Queria a melhor suite disponível no hotel, por favor!», tudo me parece ousado e perverso. Reajo.

- Para mim, queria um quarto virado para o centro, obrigada!

Olhos de revolta face à “traidora”, sinto todo o sussurrar da palavra a transpirar do meu corpo «TRAIDORA».

- Não me leves a mal, por favor, eu mal te conheço e… daí que… não consigo ir por aí com tanta leveza… afinal!

Tento uma redenção mal-amanhada. Ouço o génio da lâmpada que diz por fim:

- Seu desejo é uma ordem, minha senhora! Queria, então, a tal suite e o tal quarto, por favor.

Sacudo o constrangimento, endireitando as costas, reposicionando os ombros no seu lugar… olho diretamente para Rodni e apago qualquer vestígio de vergonha com uma cara alegre, em paz, consciente da ação. Obtenho o mesmíssimo feedback! Fenomenal!

Vou para o meu quarto, Rodni sobe para a sua enorme suite. «Até já, no sítio combinado», dizemos em consonância.

18
Mar18

Cá estamos

Gabriela Lima

Cá estamos. Acabadinhos de chegar. E agora? Eu tenho todo o tempo do mundo e toda a imaginação do mundo percorre o meu corpo, todo o meu auge corre o risco de virar…

- São 13:10. Só tenho reunião às 15:50. Que fazemos até lá? Conhece bem a cidade?

Como comunicamos em inglês, surge a pergunta, tratamo-nos por “tu” ou por “você”? Na verdade, nesta língua, é tão irrelevante… vou passar ao “tu”…

- Não, não conheço bem a cidade, mas, para ser sincera, não me apetece visitar museu a museu, monumento a monumento… gostava de saborear o ar da cidade, tranquilamente… agora, um café, depois um sítio onde se possa comer qualquer coisa mais genuína do local e, quem sabe, um passeio pelos verdes da cidade, um lanche agradável para me despedir de uma tarde fulminante… recordo este lugar assim… fulminante! E a reunião termina…?

- Suponho que durará cerca de duas horas, no máximo! Lanche ajantarado marcado?

- Sim! Onde nos encontramos? Aqui mesmo?

- Não vejo inconveniente nenhum. Deixamos as coisas no hotel?

- Fica muito longe o tal hotel? – Pergunto tão inibida quanto entusiasmada.

- Não, é já ali.

Olhamos um para o outro… acho que a pergunta é: E como fazemos o check-in? Juntos? Separados? A inibição abafou-me até quase não conseguir respirar, mas, logo de seguida, ativou-se o alarme antipânico que existe dentro de mim e reajo.

- Bom, eu quero o meu quarto virado para o centro! É lindo! E quero viver um momento na varanda a observar o clima daqui.

Rodni sorri, para em seguida me fitar com alguma seriedade.

- Não era para partilharmos a suite real? Tem mais do que um quarto… sala-de-estar, kitchenette, um autêntico apartamento de primeira, vais perder a oportunidade?

Interpreto “oportunidade”. Não consigo deixar de interpretar “oportunidade”. Fico sem palavras…

11
Mar18

Deixo-o levar-me

Gabriela Lima

Deixo-o levar-me para onde me diz ser o café-bar-restaurante onde melhor se sente, «como em casa», embora extremamente atenta a tudo, sempre muito desconfiada para não perder a consciência de mim mesma e desta decisão algo inesperada, nada comum e potencialmente perigosa.

«Como em casa»! Desde que o ambiente se adeque a uma boa conversa e sustente uma sensação de magia infinita, eu topo, adoro e volto lá. É claro que as pessoas também fazem o ambiente e a recordação não é tanto do café desnudo, impessoal, mas sim, da combinação de cada um de nós, porque somos nós que lhe conferimos aquele ar acolhedor, que oferecemos à ténue luz uma vibração estimulante, que tornamos a decoração a mais enternecedora.

E aquele espaço veio a tornar-se um espaço eterno de luz e sentimento.

Não lhe vislumbro ainda os olhos, de tão fugazes no seu movimento. Mas reconheço na voz uma proximidade que me acalma, me toca e me extasia.

Falamos das nossas idades, dos nossos desvarios durante a doce juventude e a mais amarga, dos sonhos e devaneios para cumprir o futuro e das religiões e falta delas.

Pontos de vista em comum, alguns mais ou menos exacerbados de um dos lados, mas sempre em convergência. Alguma dificuldade em tratar diretamente as questões em desacordo. Poucas, mas fortes. Forma de reagir e ser tão parecidas quanto distantes ou mesmo opostas. Gostos parecidos, mas nem por isso iguais. Palavras e frases não ditas mas trocadas em pensamento, canalizadas por telepatia. Química perfeita, genuína, celeste.

Rodni levanta-se, dirige-se ao balcão para pedir com urgência um copo de água. Enquanto espera, vira o seu corpo na minha direção. De repente, o ruído ambiente desliga-se, e somos focados apenas os dois por um holofote inexistente; olhamos um para o outro, sorrimos profundamente… um segundo… durou um segundo, para, em seguida, descermos à “terra” e continuarmos o nosso café.

- Eu vou perguntar, não me leve a mal, mas eu tenho de perguntar.

Abano a cabeça a autorizar, ansiosa.

 - Podemos passar este dia juntos? Só para conviver, conversar, conhecer-nos melhor.

Claro, na nossa idade, sem demais intenções, parece-me excelente. Boa forma de colocar as coisas.

- Podemos sempre prosseguir de viagem e sair em Paris… continuaríamos juntos o percurso…? – Respondo em forma de pergunta, a querer ser muito cautelosa e simultaneamente arriscada.

Condescende a olhar-me nos olhos. Um segundo… Desvio os meus.

- Não sou daqui e não falo francês, mas adoro esta parte do país. – Diz em tom de reinício de conversa a tentar incutir alguma sabedoria.

- Pois digo-lhe que, no que toca ao país, adorei La Rochelle e a região de Bretagne. A luz de La Rochelle é genial. Concordo que este café também me deixou extremamente impressionada.

- Ó, isso foi da minha companhia! Sem mim, o café não vale nada! – Ri desalmadamente.

- Às tantas, não tem nada que fazer e mete-se no comboio em boa posição para conhecer uma garota e convidá-la a conhecer um dos seus cafés favoritos. Chegando ao destino, convida-me para jantar e depois de uma noite confortável no melhor hotel da romântica cidade, que tem a amabilidade de pagar, um pequeno-almoço requintado e o adeus até ao meu regresso! É assim? – Respondo a brincar.

- Trata-se de uma sugestão? Não me desagrada, para dizer a verdade. Ó, não vou assustá-la. Vou em negócios… uma reunião. Mas terei de pernoitar… é um bom hotel, não sou eu que pago, porém… incomoda muito esse fator?

Rio-me e faço de conta que era tudo uma brincadeira. Depois, vem a revelação para acalmar os pensamentos que assaltam normalmente uma mulher numa situação com o desconhecido.

- Não sou casado, não tenho namorada, nem filhos. Por isso, não teria nenhum problema. E o seu caso, qual é?

Com isto, fiquei qual pateta a olhar para o infinito. Não consigo responder à letra…

- Sou uma serial killer e vou-te comer…

Faço um grunhido ao mesmo tempo que levanto as mãos em forma de o apanhar, mas com a distância adequada para não enganar. Agarra-me nas mãos como em autodefesa, puxa-me um bocadinho na sua direção, controla… larga e olha para mim a rir, com um certo embaraço, mas muito sensual!

Qualquer convite, neste momento, não recusaria!

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